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Argentina
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O obelisco que quase não existiu

Controvérsias na construção do ícone de Buenos Aires

By Jazmin Agudelo for Ruta Pantera on 6/2/2026 12:33:27 PM

No coração de Buenos Aires, erguido com firmeza como um sentinela inabalável na interseção das avenidas Corrientes e 9 de Julio, encontra-se o Obelisco, um monumento que passou de objeto de zombaria e controvérsia a se tornar o emblema indiscutível da cidade. Inaugurado em 1936 para comemorar o 400º aniversário da fundação de Buenos Aires, este colosso de concreto de 67,5 metros quase não chegou a existir e, pouco depois de seu nascimento, chegou a enfrentar a ameaça de demolição. Sua história é um relato de ambição urbana, tensões culturais e resiliência, refletindo as transformações da Argentina na década de 1930. Este artigo explora sua origem, as controvérsias que o cercaram e como, contra todas as probabilidades, acabou se consolidando como um ícone portenho.

Um monumento para uma cidade em renovação

Em 1936, a Argentina celebrava os 400 anos da primeira fundação de Buenos Aires por Pedro de Mendoza em 2 de fevereiro de 1536. Nesse contexto, sob a presidência de Agustín Pedro Justo (1932–1938) e a administração de Mariano de Vedia y Mitre (1932–1938), a cidade lançou um ambicioso plano de obras públicas que incluiu a ampliação da avenida Corrientes, a abertura da avenida 9 de Julio e a criação da Praça da República. Esse projeto não era apenas urbanístico, mas uma declaração de modernidade inspirada em modelos europeus como os bulevares parisienses, adaptados ao espírito portenho. O decreto municipal que aprovou o monumento foi assinado em 3 de fevereiro de 1936, e o projeto foi confiado ao arquiteto Alberto Prebisch, figura-chave do racionalismo argentino, conhecido também pelo cinema Gran Rex. Influenciado pelo modernismo, Prebisch propôs uma forma simples, porém monumental: um obelisco inspirado em estruturas do Antigo Egito, reinterpretado com uma linguagem contemporânea. O local escolhido não foi casual: ali se encontrava a igreja de San Nicolás de Bari, onde a bandeira argentina foi hasteada pela primeira vez em Buenos Aires em 23 de agosto de 1812. A demolição do templo, decidida após um processo judicial vencido pela prefeitura em 1931, gerou a primeira grande controvérsia. Para muitos, representou um sacrifício desnecessário do patrimônio histórico em nome do progresso (Gobierno de la Ciudad de Buenos Aires, n.d.). A nova igreja de San Nicolás foi inaugurada em 1935 na avenida Santa Fe, mas a perda do templo original provocou fortes críticas de setores conservadores e católicos. Nesse local haviam sido batizados personagens como Mariano Moreno e Manuel Dorrego, além de abrigar os restos de Manuel Alberti, intensificando o debate entre tradição e modernidade.

Uma obra rápida e uma tragédia silenciosa

A construção do Obelisco começou em 20 de março de 1936 e foi concluída em apenas 60 dias, sendo inaugurada em 23 de maio às 15h, às vésperas das comemorações de 25 de maio. A obra foi executada pelo consórcio alemão GEOPÉ–Siemens Bauunion–Grün & Bilfinger, com 157 trabalhadores e o uso de técnicas avançadas para a época. Foram utilizados 680 metros cúbicos de concreto com cimento de secagem rápida e o revestimento de 1.360 metros quadrados de pedra calcária branca proveniente de Córdoba. O custo total foi de 200.000 pesos moeda nacional, relativamente baixo para uma obra dessa magnitude (Wikipedia contributors, 2025). A estrutura tem 67,5 metros de altura, com base quadrada de 6,8 metros de lado, afunilando até 3,5 metros no topo, coroado por um para-raios. Possui uma única entrada no lado oeste, que leva a uma escada interna de 206 degraus. No topo, quatro janelas oferecem vistas panorâmicas da cidade. Suas fundações estão integradas à linha B do metrô. No entanto, a rapidez da obra teve um custo humano: o trabalhador italiano José Cosentino morreu ao cair em uma das cavidades da base, tornando-se a única vítima do projeto. Apesar disso, a inauguração foi solene. O intendente Vedia y Mitre descreveu o monumento como “a materialização da alma de Buenos Aires”.

Do rejeito às tentativas de demolição

Desde sua inauguração, o Obelisco gerou fortes críticas. Foi considerado “feio”, “intruso” ou até “monstruoso”, em contraste com a estética neoclássica dominante na cidade. Sua forma também alimentou zombarias e controvérsias, enquanto a demolição da igreja de San Nicolás aprofundou o conflito simbólico entre tradição e modernidade (Santillán, 2021). A tensão atingiu seu auge em 1939. Em 1938, desprendimentos no revestimento causaram pequenos danos, atribuídos às vibrações do metrô. Isso levou o Conselho Deliberativo a aprovar a ordemanza 10.251 para sua demolição, alegando razões estéticas, econômicas e de segurança. O debate dividiu a cidade: para os defensores do patrimônio era um “intruso urbano”, enquanto outros o viam como símbolo moderno de Buenos Aires. Finalmente, o presidente Roberto Marcelino Ortiz interveio e vetou a demolição. O monumento foi reparado, embora seu revestimento original tenha sido substituído e a assinatura do arquiteto Prebisch removida.
Uma tela viva da história argentina

Com o tempo, o Obelisco deixou de ser controvérsia para se tornar um palco central da vida pública portenha. Já foi cenário de celebrações esportivas, protestos e intervenções artísticas, rivalizando com a Plaza de Mayo como ponto de encontro. Entre suas intervenções mais marcantes estão sua decoração como árvore de Natal em 1973, um anel giratório de limpeza urbana em 1975, uma cobertura com preservativo gigante no Dia Mundial da AIDS em 2005 e uma faixa da Greenpeace em 1998 com a mensagem “Salvem o clima” (Wikipedia contributors, 2025). Nos últimos anos, foi restaurado em 2021 para seu 85º aniversário. No entanto, em 2025 surgiu uma nova polêmica quando o governo da cidade o concedeu à iniciativa privada, com a instalação de um elevador e um mirante pago, reacendendo o debate sobre a privatização do patrimônio público.

Um símbolo forjado na adversidade

O Obelisco que quase não existiu hoje é prova de como a controvérsia pode dar origem a símbolos duradouros. O que começou como uma obra questionada e apressada acabou se tornando o coração simbólico de Buenos Aires. Sua história lembra que grandes ícones não nascem sem conflito, mas são construídos no meio de tensões sociais, políticas e culturais. Hoje, a cidade é inseparável de sua silhueta, que segue representando a aspiração de grandeza de uma nação em constante transformação.

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References:
Balmaceda, D. (n.d.). The year they wanted to demolish the Obelisk and the controversy that divided porteños. Instituto de Cultura CUDES. https://institutodecultura.cudes.org.ar/articulo/el-ano-en-que-quisieron-demoler-el-obelisco-y-la-polemica-que-dividio-a-los-portenos-por-daniel-balmaceda/
Gobierno de la Ciudad de Buenos Aires. (n.d.). History of the Obelisk. Buenos Aires Ciudad. https://buenosaires.gob.ar/plaza-de-la-republica/historia-del-obelisco
Santillán, J. (2021, May 23). The curious history of the Obelisk, a porteño icon that survived criticism and escaped demolition. Infobae. https://www.infobae.com/sociedad/2021/05/23/la-curiosa-historia-del-obelisco-un-icono-porteno-que-sobrevivio-a-las-criticas-y-se-salvo-de-la-demolicion/
Wikipedia contributors. (2025). Obelisk of Buenos Aires. Wikipedia, The Free Encyclopedia. https://es.wikipedia.org/wiki/Obelisco_de_Buenos_Aires


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